Publicado em 12/08/2026 | Por_Thiago Rodrigo
Inserida em uma espécie de ‘caixa’ emoldurada pela marcenaria, neste projeto assinado pela arquiteta Ana Rozenblit a TV não monopoliza a atenção, mas entra como um dos elementos que integram o décor de interiores |Projeto: escritório Spaço Interior | Foto: Kadu Lopes
As maratonas de séries disponíveis nos streamings, as transmissões esportivas ao vivo e até as partidas de videogame transformaram a televisão em um dos principais pontos de encontro dentro de casa. Embora a forma de consumir conteúdo tenha mudado profundamente nas últimas décadas, a tela continua a influenciar a maneira como os ambientes são planejados e ocupados.
Muito antes das Smart TVs reunirem plataformas de entretenimento em um único equipamento, a chegada da televisão ao Brasil, em 1950, já provocou uma mudança na configuração das residências. A sala de estar, tradicionalmente concebida para conversas, encontros familiares e momentos de descanso, ganhou um novo ponto focal. Sofás mudaram de posição, surgiram móveis específicos para acomodar os aparelhos e a arquitetura passou a considerar a presença dos aparelhos.
Comemorado em 11 de agosto, desde 1958, o Dia da Televisão homenageia a evolução e a importância desse equipamento no Brasil. A data faz referência ao dia da morte de Santa Clara de Assis, declarada a padroeira da televisão, e oferece um bom ponto de partida para observar como a evolução desse equipamento caminhou lado a lado com a arquitetura de interiores.
Ao longo de pouco mais de sete décadas, a tecnologia influenciou o layout das salas, impulsionou novas soluções de marcenaria, transformou os projetos de iluminação e redefiniu a forma de viver os espaços da casa.
Antes da televisão fazer parte da rotina das famílias, as salas de estar eram organizadas para favorecer a interação entre as pessoas. Sofás e poltronas voltavam-se uns para os outros, entregando uma configuração que estimulava conversas, leitura e momentos compartilhados.
A chegada da TV mudou essa lógica. A tela passou a ocupar a parede principal da sala e, naturalmente, o mobiliário foi reorganizado para garantir conforto visual. Sofás ganharam um novo posicionamento e surgiram racks, estantes e painéis específicos para acomodar os aparelhos eletrônicos, enquanto o layout passou a considerar distâncias, circulação e diferentes ângulos de visualização.

A evolução tecnológica das televisões também redefiniu a maneira como os ambientes são planejados. Se antes os aparelhos exigiam móveis robustos para acomodar também os equipamentos de som, videocassetes, DVDs e uma grande quantidade de cabos aparentes, hoje o objetivo é exatamente o contrário: fazer com que toda essa infraestrutura praticamente desapareça.
Por isso, os projetos costumam prever, ainda na fase de obra, a localização da televisão, os pontos elétricos, conduítes para passagem de cabos, conexões de internet e suportes de fixação. Esse planejamento permite esconder toda a infraestrutura dentro das paredes ou da marcenaria, resultando em uma composição mais limpa e visualmente organizada.
Quando a instalação não foi prevista antecipadamente, painéis em madeira e móveis planejados tornam-se importantes aliados. Além de esconder a fiação, essas soluções acomodam equipamentos complementares e evitam intervenções maiores na alvenaria.
Essa preparação também amplia as possibilidades de instalação. Dependendo das características do ambiente, a televisão pode ser fixada diretamente na parede, instalada sobre painéis, compor suportes articulados ou integrar estruturas desenhadas sob medida para o projeto.
Antes, a parede da televisão concentrava praticamente toda a atenção da sala. Hoje, a tendência é construir composições mais equilibradas, em que a tecnologia convive naturalmente com os demais elementos do ambiente.
Em vez de dedicar uma parede exclusivamente ao aparelho, a marcenaria incorpora nichos, estantes, livros, obras de arte, plantas e objetos decorativos que distribuem o interesse visual pelo espaço. A televisão continua presente, mas deixa de monopolizar a composição.
Esse conceito acompanha uma característica marcante dos projetos contemporâneos, principalmente em apartamentos e plantas integradas. Em grande parte das residências, a sala de estar também é o espaço destinado à televisão, reunindo diferentes funções em um único ambiente.
Por isso, o desafio da arquitetura deixou o de elaborar uma sala voltada exclusivamente para assistir TV e passou a ser entregar um espaço capaz de acomodar o entretenimento sem abrir mão do conforto e da convivência. O equipamento passa a ser tratado como mais um elemento da composição arquitetônica — importante, mas longe de ser o protagonista.

Assistir televisão envolve, além de escolher uma tela de grandes dimensões, a comodidade visual e a ergonomia que começa ainda na concepção do ambiente. O dimensionamento da televisão deve respeitar as proporções da parede e do espaço disponível, evitando que o equipamento se torne desproporcional em relação ao restante da composição. Da mesma forma, a instalação deve considerar uma altura que favoreça o campo de visão de quem está sentado, reduzindo esforços durante longos períodos de uso.
A distribuição do mobiliário segue o mesmo princípio. Sofás confortáveis, poltronas alocadas de forma estratégica e uma circulação bem planejada permitem que o ambiente funcione tanto para assistir a um filme quanto para receber visitas ou simplesmente aproveitar momentos de descanso.
Ao integrar o painel em porcelanato aos ripados em madeira e ao projeto luminotécnico, a arquiteta Cristiane Schiavoni cria uma linha contínua de iluminação que percorre a parede da televisão, acompanha o teto e chega até a área do sofá | Fotos: Carlos Piratininga
A iluminação também exerce papel decisivo. Projetos luminotécnicos costumam privilegiar luz indireta e temperaturas de cor mais quentes, entre 2.700 K e 3.000 K, propiciando uma atmosfera acolhedora e reduzindo reflexos sobre a tela. Recursos como dimerização e automação oferecem flexibilidade para adaptar a intensidade da iluminação conforme a atividade realizada, enquanto perfis de LED, arandelas e luminárias de apoio ajudam a valorizar texturas, revestimentos e elementos decorativos sem comprometer o conforto visual.
A presença da televisão extrapolou as áreas sociais da casa e passou a fazer parte dos dormitórios, exigindo soluções específicas para garantir conforto e integração estética. Nesses ambientes, a posição da tela deve considerar tanto quem assiste deitado, quanto quem utiliza a cabeceira como apoio para leitura ou momentos de descanso. Quando o alinhamento com a cama não é possível, suportes articulados ampliam a mobilidade do aparelho e tornam a visualização mais confortável.
Assim como acontece nas salas de estar, painéis planejados facilitam a passagem da infraestrutura, escondem a fiação e contribuem para uma composição visual mais organizada. O tamanho da televisão também acompanha as dimensões do dormitório, preservando o equilíbrio entre os diferentes elementos do ambiente.
